27/09/2013

a metafísica da tradução



eis "o que, no fundo, constitui o eminentemente humano: o ideológico, o cultural, a perspectiva, o desejo (consciente e, principalmente, inconsciente), o finito, o mortal e tudo aquilo que resiste a qualquer pretensão de controle, sistematização ou pré-determinação".
O fato de ser sempre e inevitavelmente uma leitura ou uma interpretação não constitui, entretanto, uma característica peculiar da atividade do tradutor; revela, sim, um traço essencial de toda e qualquer atividade linguística e até mesmo de qualquer atividade humana. Toda tradução revela sua origem numa interpretação exatamente porque o texto de que parte, o chamado "original", somente vive através de uma leitura que será - sempre e necessariamente - também produto da perspectiva e das circunstâncias em que ocorre.
rosemary arrojo, "as questões teóricas da tradução e a desconstrução do logocentrismo: algumas reflexões", in o signo desconstruído. campinas: pontes, 2003.

sinceridade? nem perca tempo com essas coisas. pois, se assim é, assim é e ponto. e se assim não é (como, a meu ver, demonstram cabalmente as intermináveis discussões nos últimos quase três milênios), provavelmente não vai ser você o metafísico de plantão que deslindará a essência ontológica da tradução. o texto está à sua frente e seu compromisso - sempre de ordem prática, digam os teóricos o que disserem - é com ele.

piiiiiiiii VII


quando não souber, não chute.



26/09/2013

seicho-no-iê do tradutor


frase do dia: "não estranhes em demasia os caminhos do mundo".

hokusai, aqui

03/07/2013

seicho-no-iê do tradutor



frase do dia: "não reduzas teu autor a ti; ergue-te e alarga-te a ele"

hokusai, queda d'água

24/06/2013

decálogo


1. não existe uma tradução única de nada
2. tradutor, em princípio, não é o ser mais ignorante do universo
3. tradutor, em princípio, não é o ser mais sapiente do universo
4. tradutor erra
5. erro de tradução, erro de edição e erro de revisão são coisas diferentes
6. tradutor sempre tem algum tipo de motivação na tradução que faz
7. tradutor está imerso em seu tempo e em seu espaço
8. tradutor sempre tem uma pequena margem de liberdade e muitos férreos limites
9. tradutor não é mágico
10. tradutor não é traidor

12/04/2013

bons conselhos

o editor william campos da cruz, que conhece bem os dramas de tradução e lida diariamente com os ossos do oficio, dá conselhos valiosos aos aspirantes e iniciantes em tradução em seu artigo sobre o ofício do tradutor, aqui.

30/03/2013

matéria para reflexão

uma vez, encomendaram-me a tradução de um livro desses de teoria e ciências humanas, que são mais minha área. já havia uma tradução anterior do mesmo livro, lançada uns vinte ou trinta anos antes. avisei a editora e perguntei se ela queria que eu consultasse a edição antiga. ela parou, pensou uns dois segundos e respondeu: "não, melhor não, senão perde a espontaneidade".

28/02/2013

piiiiiiiii VI

caro amiguinho, iniciante ou aspirante à tradução: ame a palavra. leia benveniste, por exemplo (eu gosto) - ou os clássicos do judaísmo, ou os hermeneutas do século XV. você encontrará substância rica, densa, com elementos muito, muitíssimo mais pertinentes do que esse fetichismo barato do tal do contexto que, se te apertarem, você nem vai saber dizer o que é e vai invocar dez mil coisas diferentes, desde a mais trivial construção sintática de uma frase até uma cosmologia qualquer na qual você mesmo se perde.

encontre seu coração. se você quer traduzir, se você acha que gosta de traduzir, é porque em algum lugar de teu íntimo você ama a palavra. o resto é o resto.

quanto à generalização barata a que foi submetido o pobre do "contexto", veja aqui.

"contexto"

atualmente tenho visto o termo "contexto" lançado a torto e a direito em análises e comentários sobre tradução, com uma ampla e indiscriminada prodigalidade e com um grau de indefinição que o transforma em praticamente qualquer coisa que não seja uma determinada palavra ou expressão em pauta.

nesse âmbito variegado, o "contexto" pode ser a frase em que uma determinada palavra ou expressão está inserida, pode ser o assunto de que trata o texto onde ela está inserida, pode ser a carga conotativa do termo na época em que o autor escreveu, pode ser a cultura em que viveu o autor, pode ser a época literária em que se inseria aquela obra, pode ser a história em que se insere aquele léxico ou mesmo aquele conceito, pode ser, mais rasteiramente, a finalidade a que se destina aquele texto no presente - em suma, qualquer coisa, intra, extra, inter, supra, infra, trans, ad.

por isso, quando ouço ou leio a palavra "contexto", usada como uma varinha de condão - "depende do contexto", "qual é o contexto?", "ah, mas o contexto!" -, sinto alguns arrepios. a generalidade, a generalização, aliás, costuma mesmo me dar alguns arrepios. contexto? de que contexto, afinal, está-se falando quando se fala em contexto?

esta é minha primeira birra, e a principal, que tenho contra essa vaguidade, esse amplo campo vazio a que se atiram todas e quaisquer perguntas, dúvidas, interesses e curiosidades. é uma birra de abrangência tão ampla quanto a do atual uso insciente e indiscriminado da palavra "contexto".

tenho algumas outras birras, bem mais específicas, que nem vêm muito ao caso, pois pertencem a uma esfera de reflexões um pouco mais, digamos, particularizadas sobre as questões de sentido.

de todo modo, para dar o contexto da noção de contexto, até para entender um pouco melhor o que isso significa e como essa noção se desprende de seu próprio "contexto", eu sugeriria a consulta às fontes, à gênese mesma do conceito: malinowski, com seu "contexto de uso". tendo isso como base, fica mais fácil acompanhar a ampliação do conceito, a perda de sua especificidade e a facilidade com que agora abriga qualquer coisa ou o fetichismo que o leva a ser visto como uma espécie de fórmula mágica.

na prática, IV


tsc, tsc

take your time; não se apresse. se a rapidez lhe vem naturalmente, ótimo; mas o mais importante é ansiedade zero.

23/02/2013

na prática, III


ao traduzir, o que você vê quando lê?

22/02/2013

na prática, II

continuando com exemplos práticos, para tentar observar o tipo de construção da narrativa, ainda com mrs dalloway:

Outra coisa que me parece encantadora é a liberalidade com que Woolf usa as várias formas do gerúndio. Esse trechinho aqui achei especial:
Rezia, sitting at the table twisting a hat in her hands, watched him; saw him smiling. He was happy then. But she could not bear to see him smiling. It was not marriage; it was not being one’s husband to look strange like that, always to be starting, laughing, sitting hour after hour silent, or clutching her and telling her to write. 
Mais um trechinho que achei um encanto, tremendamente reforçado com a profusão de adjetivos e advérbios de modo, é quando Elizabeth está passeando de ônibus:
for a pirate it was, reckless, unscrupulous, bearing down ruthlessly, circumventing dangerously, boldly snatching a passenger, or ignoring a passenger, squeezing eel-like and arrogant in between, and then rushing insolently all sails spread up Whitehall. 
muito bonito isso aqui:  bearing down ruthlessly, circumventing dangerously, boldly snatching a passenger, sobretudo quando o segundo advérbio posposto praticamente se cola ao seguinte, anteposto ao verbo.

na prática, I

comentei em algum lugar que, para mim, o mais importante é conseguir entender o texto, isto é, tentar reconstituir o tipo de estruturação narrativa e sobretudo estilística que dá sustentação ao discurso. dou um exemplo que transcrevo do blog que montei enquanto fazia a tradução de mrs. dalloway, aqui:
Que frase linda! É dentro da igreja, da abadia de Westminster, um fiel que acabou de rezar, quer sair e tem de passar pelo banco, e Miss Kilman, preceptora de Elizabeth, filha de Clarissa, está ali rezando na ponta do banco por onde o homem quer sair. Ela não cede logo a passagem e ele fica esperando:
But, as he stood gazing about him, at the white marbles, grey window panes, and accumulated treasures (for he was extremely proud of the Abbey), her largeness, robustness, and power as she sat there shifting her knees from time to time (it was so rough the approach to her God — so tough her desires) impressed him, as they had impressed Mrs. Dalloway (she could not get the thought of her out of her mind that afternoon), the Rev. Edward Whittaker, and Elizabeth too.
Note-se a quantidade de interpolações entre parênteses, três vezes no mesmo período! O equilíbrio e o paralelismo: além das três interpolações, três elementos (adjetivados) da igreja, três elementos (simples) de Miss Kilman, três elementos (nominais) ao final do período.
O detalhe flaubertiano: shifting her knees; a linda assonância de rough/tough nas duas construções em paralelo; a proximidade dos dois impressed, que quase se juntam, um no final da longa oração, outro no começo da próxima: impressed him, as they had impressed. Essa capacidade de fazer tudo o que está no período confluir para um ponto, o qual então se revela central - puxando o começo e puxando o fim para se encontrarem no impressed duplicado: é soberbo!
E como a ligação, ou melhor, a sucessão nuclear dos dois impressed permite que o texto passe do homem e do interior para outras pessoas - três também, note-se - e para o exterior: o foco que sai do zoom e se abre. E aquele too sozinho, no final do período, tão descendente, tão parco e definitivo em seu aparente anticlímax! 
E as imagens? Que Miss Kilman mexa os joelhos, como que incomodada com a dureza, a aspereza do caminho... E os dois her praticamente seguidos, um referente a Clarissa e outro a Miss Kilman, the thought of her out of her mind! É tudo muito elaborado.
(afterthought: a insistência no três terá alguma conotação trinitarista, dado o contexto da cena dentro da abadia?)
e o que resulta de toda essa composição tão elaborada, como descrição emocional e psicológica dos personagens e para a visualização do leitor? não é espantoso?

20/02/2013

o outro lado III: custos

Você olha o preço de capa de um livro e acha que as editoras ganham os tubos. Grandes grupos ganham, claro, mas mais no volume do que necessariamente no preço.

Isso é de conhecimento geral, mas só para ficar registrado aqui neste blogue. Um cálculo dos custos e da composição do preço, bastante simples, mas razoavelmente preciso e que é utilizado em muitas editoras, é o seguinte (foi-me fornecido por uma editora muito séria, de porte médio, há cerca de quarenta anos na praça):
Os custos de um livro são os seguintes: gráfica e papel: 50%; editoração (capa, paginação e arquivo): 20%; tradução: 30%. O livro é vendido ou consignado à livraria por X, a preço de capa de 2X, ou seja, 50% fica para a livraria.
No caso de obra em domínio público, não se paga direito autoral, mas, caso o original não esteja em domínio público, deve ser incluído um percentual de 20% para compor o preço final. Na realidade, em termos de custos, é 10%, mas, como o livro é vendido com 50% de desconto para os livreiros, os 10% do preço final correspondem a 20% da metade.
Naturalmente, neste esboço falta a margem de lucro da editora, sem falar do preço de aquisição dos direitos de publicação a 10%, pois sabemos que em muitos casos o valor pago à editora original chega a ser astronômico. Em todo caso, é uma média que se aplica a grande parte dos casos.

Note-se que, no esquema acima, o custo de tradução está lançado a 30%, mas sei que algumas das editoras com as quais trabalho lançam a 25%. E certamente há variações de editora para editora, de edição para edição e assim por diante. O que quero dizer é que, de uma maneira ou outra, com maiores ou menores discrepâncias, o item mais oneroso no editorial é a tradução.

Acho importante desmistificar uma ideia que às vezes vejo por aí, de que as editoras são entidades benemerentes que deveriam atender aos caprichos de tradutores meio despistados ou que todas elas são empresas entregues à pura ganância e ao mais selvagem capitalismo. Não creio que seja uma visão sequer aproximada do que conheço do mundo editorial. Editoras não são vilãs, em sua maioria. Vilãs são as fraudadoras, claro; as que roubam traduções alheias, as que não colocam créditos de tradução, as que obrigam os tradutores a assinar contratos abrindo mão do direito ao nome, as que jogam o preço da lauda lá embaixo e coisas do gênero.

o outro lado II: quanto tempo

Você sabe qual é a estimativa do tempo de giro de uma edição com tiragem padrão de 3 mil exemplares? E digo estimativa formal, de cálculo de planilha da empresa. Não? Dezoito meses. E isso é apenas uma estimativa média para o cálculo do tempo de retorno do capital investido. Muitas edições levam de três a cinco anos, outras simplesmente encalham. E a empresa não pode parar, senão some do mercado.

o outro lado I: um em dez

Aliás, espero que seja de conhecimento geral que, em suas planilhas, as editoras calculam que, de dez livros publicados e numa média geral, nove não se pagam e é o décimo que tem de cobrir seus próprios custos, o déficit dos outros nove e dar lucro para a empresa.

O leigo há de arregalar os olhos e perguntar: ué, mas por quê? Porque uma editora não pode parar. Além de ter de manter todo o operacional da empresa funcionando, tem de garantir perpetuamente seu espaço nas livrarias, entre outras coisas.

O leigo continua de olho arregalado e pergunta: mas então por que não publica só best-seller? Porque best-seller não cai do céu, ué. E a grande maioria do catálogo de uma editora ou é de fundo ou é de risco, sacou?

19/01/2013

saber aprender


um texto muito legal de daniel argolo estill: remando, aqui.

16/01/2013

treinando o raciocínio lógico



conheço uma quantidade enorme de tradutores editoriais que adoram um sudokuzinho.  

e você, gosta?


08/01/2013

piiiiii V



"... eu senti a necessidade de explorar a vida como outra pessoa, mas eu sei que eu só poderia fazer esse trabalho se eu sentisse que não há escolha... Eu espero que isso faça sentido, Steven. Eu estou feliz por ser você quem está fazendo o filme, eu te desejo força para isso, e eu envio a você meus votos de felicidade" - aqui.

não preciso explicar o espanto, né?


05/01/2013

piiiiii IV

Record, o maior grupo editorial do país, decide adotar "um  modelo ao qual pretende recorrer com frequência: convidar tradutores que não sejam profissionais na tradução, mas especialistas nos temas dos livros". Acho que é meio disso que estamos falando e de te [nos] fabula narratur.

Notícia aqui.

03/01/2013

piiiiii III

Gente, o que é isso?

Reclamação constante nas editoras: atraso e descumprimento dos prazos, seja por parte de tradutor, de preparador ou de revisor.

Não pode, não pode e não pode. Entendido? Entendido.


chefes

Quem veio acompanhando minhas memórias revisórias deve ter notado que sempre menciono meus antigos chefes e como sou grata a eles.

Talvez hoje em dia nem todos os revisores e preparadores trabalhem diretamente sob um chefe, como uma figura ao vivo, aquela pessoa de carne e osso a teu lado, ensinando, orientando e fazendo junto as tarefas. Por incrível que pareça e contra a infinidade de charges e caricaturas, chefes costumam ser muito legais: até porque, imagino eu, são os primeiros interessados em treinar bem os novatos, em manter uma equipe eficiente, em poder contar com um serviço bem feito.

Hoje em dia, também, ouço muito falarem em oficinas e workshops. Vejo muito, por exemplo, "oficina de tradução": um evento de dois ou três dias, em que um tradutor mais experiente discorre sobre sua experiência e dá exemplos práticos aos participantes. Ou uma cadeira na faculdade em que, durante algumas horas duas ou três vezes por semana, o professor dá textos para os alunos praticarem tradução ou manda fazerem em casa e depois analisa, avalia, comenta em sala de aula (imagino eu).

Outro dia fiquei pensando como o papel de um mestre numa oficina-oficina é semelhante ao de um chefe num departamento editorial de décadas atrás. Hoje é bem diferente, pois a maior parte do processo editorial (preparação, revisão, diagramação etc.) é feita fora, em agências, por freelancers, em casa, com arquivos digitais e assim por diante. Aí não sei bem como se dá a formação prática e o desenvolvimento da capacitação profissional da pessoa.

E fiquei pensando também na "escola de tradutores" do Rónai e como ele deplorava a impossibilidade prática de se ter uma oficina efetiva, com um mestre que ensinasse o ofício de tradução a seus aprendizes. De fato, se em meados do século passado já era difícil, quem dirá no século XXI - é outra realidade. De todo modo, adorei ter chefes.


02/01/2013

minha carreira de revisora V

Continuando, a Perspectiva foi a editora onde mais gostei de trabalhar em São Paulo. Não era uma linha de montagem como na Abril e, apesar do funcionamento quase caseiro, o ritmo constante e natural do serviço resultava num bom grau de eficiência no editorial.


Já gostava bastante do Rilke, de quem tinha lido A canção de amor e morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke e Cartas a um jovem poeta, naquele voluminho duplo da Globo, com tradução, respectivamente, de Cecília Meirelles e Paulo Rónai. No aniversário daquele ano, 1972, quando completei 18 anos, a querida Alice me deu Elegias de Duíno, na tradução de Dora Ferreira da Silva, que também guardo até hoje com muito carinho.

Aí o bicho-carpinteiro voltou a atacar e fui passear por esse Brasilzão afora. Plínio gentilmente me deu alguns contatos em Belém do Pará, se não me engano, e lá fui eu, cercada de abraços, bons votos e muito carinho do pessoal da editora, com a vaga aberta para quando voltasse. Não lembro em detalhes o que aprendi lá, mas, tirando leitura e marcação de prova, foi praticamente todo o resto.

Depois disso, a vida mudou bastante. No ano seguinte fui parar em Curitiba (nasci lá, mas fui criada em SP), e arranjei um emprego numa pequena gráfica no centro da cidade, para textos e folhetos de publicidade. Era moderninha, e foi onde conheci editoração eletrônica com a impressora IBM. Fazia revisão de folhetos de propaganda e classificados de jornal e aprendi também a fazer paste-up. O dono era o seu Renato, e tinha dois rapazes, todos uma simpatia. Também fiquei pouco tempo, uns dois meses, talvez.

E aí, de 1974 a 1978, fiquei fazendo outras coisas. Apenas em 1979 voltei a trabalhar com revisão, na Fundação Cultural de Curitiba, carinhosamente apelidada de Fucucu.


27/12/2012

cognatos, falsos e verdadeiros

Volta e meia, ouço dizerem "falsos cognatos" para designar palavras de grafias semelhantes em línguas diferentes, como, por exemplo, eventual em inglês e "eventual" em português, actual/"atual", relevance/"relevância" e assim por diante.

Sinceramente fico um pouco aflita. Um cognato quer dizer uma palavra com a mesma origem de outra, seja na mesma língua, seja em duas ou mais línguas diferentes - só isso. Em eventually e "eventualmente", por exemplo, temos um caso de verdadeiro, não de falso cognato. Quero dizer, são cognatos mesmo! Se o sentido de  eventually hoje em dia é muito diferente do sentido de "eventualmente" em português, não é porque não tenham a mesma origem etimológica; é porque a evolução semântica dos termos - que, repito, são realmente cognatos - foi diferente, resultando em sentidos diferentes.

O que me parece que acontece, é que às vezes as pessoas dizem "falso cognato" querendo dizer "falso amigo". Ou seja, uma palavra estrangeira para a qual o tradutor acha que há uma palavra tão parecidinha em sua língua que até fica fácil - mas acontece que o sentido de uma é diferente do da outra, e por isso acaba sendo quase uma armadilha: a tal palavrinha tão fácil acaba se mostrando uma amiga da onça, uma falsa amiga.

Então, caros iniciantes e principiantes, quando forem se referir a essas falsas amigas, não digam que são falsas cognatas: boa parte dessas amiguinhas da onça são é cognatos bem verdadeiros, cognatos da gema!

Este é o ponto número 1.

O ponto número 2 é que também existem palavras que são bem hipócritas em sua aparente amizade para com o tradutor, mas não porque eram filhas da mesma mãe em priscas eras e depois cada qual seguiu seu caminho e nunca mais se viram. Simplesmente podem não ser cognatas, isto é, nem ter o mesmo tataravô em comum: por exemplo, aceitar em espanhol e "aceitar" em português - só têm uma grafia enganadoramente parecida, mas não têm e jamais tiveram qualquer etimologia em comum. São falsas amigas, sim, e são falsas cognatas também - quer dizer, podem fazer a gente pensar que, séculos ou milênios atrás, aceitar e "aceitar" eram irmãs, só que nunca foram: o azeite de origem fenícia chegou ao espanhol através do árabe, enquanto o aceite em português vem de um singelo acceptare latino. Só neste caso é que poderíamos dizer que são "falsas cognatas", ou seja, apesar da semelhança na grafia, não têm parentesco nenhum.

Mas em boa parte dos casos, repito, os falsos amigos que vêm visitar o tradutor são mesmo cognatos, e  chamá-los de "falsos cognatos" muitas vezes acaba sendo despropositado.

21/12/2012

minha carreira de revisora IV

Saindo da Abril, não sei bem o que fiz de imediato. Morava com meus pais, morria de tédio na faculdade, lia bastante, cometia meus poemas juvenis numa linda Hermes Baby que eu tinha (e ainda tenho), fazia oficina de teatro no TUCA, decerto procurava algum emprego. Gostava muito dos livros da Perspectiva, com Auerbach, Jakobson, os irmãos Campos, Octavio Paz, essas coisas. Peguei o endereço da editora na lista telefônica - ficava na Brigadeiro Luís Antônio -, fui lá, me apresentei e pedi emprego. Isso foi em 1972.

Na Perspectiva não tinha vaga, mas na Polígono, que era o braço de publicações técnicas da editora, tinha. Bom, do alto de meus dezessete anos e de minha vasta experiência de revisora que mal somava três meses, livro técnico não me assustava. Fiz o teste, passei, comecei.

Já adianto que tampouco na Perspectiva esquentei assento. Fiquei uns cinco meses, talvez. Mas de lá só guardo lembranças maravilhosas e saí apenas porque meu bicho-carpinteiro de estimação não me dava paz.

Bom, na Perspectiva era um barato. Havia uma sala só para o editorial da Perspectiva e da Polígono. Razoavelmente ampla, com janelões dando de frente para a rua, bem iluminada, uma zona de livros, estantes e papéis. Éramos em cinco, dá pra acreditar? A Mary (Amazonas Leite de Barros), que era a chefe, a Alice, uma nissei que era assistente editorial, o Renato, um outro rapaz e eu. Mary e Alice faziam o copidesque e a preparação, e nós as revisões.

Na primeira semana ou quinzena, só bati prova. Eram tipográficas, e a gráfica ficava na porta ao lado, com apenas duas pessoas: o próprio gráfico e um ajudante, um rapaz novinho, com uma enorme cabeleira arrepiada, de fala mansa e sotaque nortista bem carregado, chamado Plínio, que anos depois se tornou o diretor-presidente da EDUSP (Plínio Martins Filho). Um doce de pessoa.

Uma vez já pus essa foto no Facebook. Foi a única que restou daquela época. Tinha uma também com o Plínio e o chefe dele, mas não sei por onde anda.


Em seguida, comecei com as primeiras provas: trabalhava em dupla com o Renato, mas o sistema era bem diferente da Abril, quase caseiro. Um dia estava lá marcando e ele lendo, falei "Peraí, repete". Ele repetiu. "Não, deve estar faltando alguma coisa", disse eu. "Não faz sentido." Era uma tradução de um livro alemão de engenharia. Nem ele nem eu entendíamos alemão. Pegamos o original e toca a procurar a passagem. Avisei a Mary: "Olha, não pode ser isso. Não sei o que é, mas isso aqui não tem como". Bom, achamos a tal passagem, alguém que entendia alemão (não ali na sala, talvez o Guinsburg ou outro alguém) conferiu, estava com problema mesmo, corrigiram.

O episódio elevou minha moral lá dentro, a Mary ficou contente e foi assim que passei da Polígono para a Perspectiva. Quer dizer, a sala era a mesma, as pessoas eram as mesmas, mas a distribuição das tarefas era diferente. E mais, tchantchan: de revisão de prova passei para revisão de original (a gente diz "original" ou "manuscrito", para diferenciar de "prova", mas era tradução em laudas datilografadas). Ganhei uma mesa só para mim e aí passei a aprender a acompanhar a tradução pelo original e a copidescar o texto. A Mary me passou um livro, deu as diretrizes gerais e foi mais a Alice que me ensinou.

Sempre tive mão muito leve. Olho atento, sim, mas a mão... Corrigia apenas erros gramaticais, conferia se o sentido batia com o do original, completava eventuais omissões, mas no texto propriamente dito não mexia quase nada. Se alguma coisa parecia meio esquisita, consultava a Alice e eventualmente a Mary, e assim ia aprendendo.

Diga-se de passagem que é por isso que não entendo bem um certo frenesi atual de mexerem a torto e a direito em textos corretos e vasados satisfatoriamente. E aqui me lembrei de um episódio relativamente recente, de uns quatro anos atrás: eu andava meio enfastiada de traduzir e uma editora me passou um texto para preparar. Não era tradução, o original era em português mesmo: um artigo de umas quarenta páginas, com uma entrevista, muito leve, interessante, gostoso de ler. Fiz o que achei que tinha de fazer. Ou seja, num texto bom, quase nada - só uma coisinha aqui, outra ali. A editora ficou espantada e com toda certeza decepcionada. Mas não me arrependo e acho que fiz certo. Pois um dos aspectos centrais da revisão, seja de original ou de prova, a meu ver, é a necessidade de que a gente se desprenda da gente mesma, consiga ter um pouco de objetividade sem o reflexo condicionado de "reescrever" como a gente teria escrito em primeiro lugar, se fosse o autor. Mas não somos o autor, e o bonito - e, a meu ver, o desejável - é ler, conhecer e respeitar maneiras de escrever que, justamente, não são a nossa, oras. Assim, quando se diz que se deve respeitar o texto, o que entendo é mais ou menos isso: ter um pouco de humildade e abertura em relação ao outro. (Continua aqui)


atualização: em 2015, vim a descobrir que o "renato" era, na verdade, "antero" - ninguém menos que o antero greco, que se tornou um superjornalista, e que, supergentil, veio me avisar da peça anagramática que minha memória me pregou.



20/12/2012

minha carreira de revisora III

De meus trinta dias como trainee na Abril, ficou memória funda de três coisas. Sou ruim para guardar nomes: minha memória é mais fotográfica e meu processador mental parece que gosta de imagens e visualizações. O raciocínio sobre a coisa, as emoções associadas àquilo ficam em outros departamentos da minha cabeça, aos quais nem sempre tenho muito acesso. Então às vezes falo das imagens e só aí consigo depreender algum sentido. Desculpem-me se divagar muito.

Bom, são três conjuntos de imagens.

I.
A primeira delas é uma baia onde se sentava um rapaz - coisa rara, lembro o nome dele, Jétero - que parecia imensamente atraente, um beau-laid à la Jean-Paul Belmondo da Marginal do Tietê, com cabelo louro escuro meio rebelde, aquela desenvoltura cheia de vitalidade, de cara larga, nariz achatado e lábio leporino, que dirigia um Opala de capota arriada abraçado à namorada e mais umas três mocinhas alegres e sapecas dentro do carro. Ele mantinha na mesa um ventiladorzinho pequeno, daqueles portáteis, ligado bem diante do rosto. Eu era tímida, sempre fui, até meus 45, 50 anos - apesar de metida a independente, era quieta e encabulada. Então passava pela baia do Jétero e mal olhava. Um dia, não sei por quê, diminuí o passo. Ele me olhou com ar meio interrogativo, tipo "o que foi"; quase morri de vergonha e, para disfarçar, olhei o ventilador e disse: "Pra ter sensação de liberdade, né?". Nunca vi um olhar mudar tão rápido: era como se eu tivesse chegado ao ponto mais exato, ao centro mesmo do que ele sentia e nunca tinha formulado em palavras.

Se aquela franca admiração no olhar dele me envaideceu muito, o que me marcou nessa imagem, se eu for racionalizar, é bem isso: um ventiladorzinho ligado na cara para ter sensação de liberdade. Edificante de uma maneira levemente patética, suponho.

II.
A segunda sequência de imagens é tristíssima e ainda hoje, ao me lembrar dela, fico um pouco deprimida. Como disse, nosso chefe sabia lidar bem com a gente e todo mundo gostava dele. Um dia, ele convidou todos nós para sua festa de aniversário, à noite, em seu apartamento. Estava fazendo cinquenta anos e alguma coisa. Novata, também fui convidada. Peguei o endereço, e à noitinha tomei um ônibus e fui até o Largo do Paissandu, onde ele morava. Quem conhece São Paulo vai entender do que estou falando. Mesmo quarenta anos atrás, o Paissandu era uma decadência só, provavelmente mais do que hoje, com tanto esforço de revitalização do centro urbano mais antigo.

Subi até seu apartamento, um aposento só, escuro e triste. Poupo a descrição do lugar e de meus sentimentos, até em respeito a ele: em todo caso, a sensação física era de coração apertadinho. Ele muito alegre, muito enternecido, muito feliz mesmo. E aquela moçada em volta, rindo, tocando violão, cantando: uma moçada que decerto não ficaria no emprego nem um ano, incessantemente substituída por outra moçada alegre e descompromissada nas vagas de revisor na Abril. Aquele senhor simples, culto e gentil era meu chefe. Olhando para trás, acho que foi talvez por isso que saí da editora ao término de meus trinta dias de experiência.

III.
A terceira sequência de imagens se refere àquela figura sinistra que mencionei no post anterior, aqui. Como disse, nunca soube sua função. Também nunca falei com ele e nunca cheguei muito perto. Grandalhão, sempre calado, taciturno, com ar quase bravo, barba escura cerrada e óculos grossos. Pouco simpática, a visão.

Eu já tinha notado um esporádico vai-e-vem na mesa dele, e um dia - já contei essa história em outro lugar - aparece um rapaz magrelo, tímido, curvado, com um paletó bege surrado, que lhe estende com ar esquivo e sorrateiro um envelope gordo, tipo um pacote embrulhado. Perguntei a meu par o que era aquilo. Me respondeu em tom de segredo: "É que ele é tradutor e o pessoal vem entregar as traduções que faz para ele".

Preciso comentar?
(continua aqui)

19/12/2012

minha carreira de revisora II

Então lá comecei eu na Abril, na revisão. A sala, na verdade, era um corredor largo que fazia um U com a sala grande onde cuidavam dos cronogramas e fluxogramas das revistas e terminava numa parede. Éramos ali em catorze, divididos em sete duplas, cada qual ocupando uma "baia". Havia cinco baias de um lado e duas do outro. A baia consistia num espaço com divisórias perpendiculares à parede, com uma mesa de bom tamanho e duas cadeiras, uma na frente da outra. Na parede onde terminava aquela espécie de corredor ficava o ponto mais frequentado, o lugar onde tinha água e cafezinho, claro. Na outra ponta, no U por onde a gente entrava naquele huis clos meio claustrofóbico, havia uma mesa solitária, sem divisórias, solta ali, onde se sentava uma figura francamente sinistra. Nunca soube qual era sua função.

Eu já sabia fazer marcação e bater prova, pois tinha aprendido na Edgard Blücher, mas na Abril aprendi a trabalhar em dupla. Um ia lendo o texto, o outro ia acompanhando na prova e fazendo a marcação. Foi quando aprendi a ler batendo a pontuação com lápis, para o colega saber quando era ponto, vírgula, dois pontos. Um código muito simples e eficiente.

Agora imaginem catorze pessoas num corredor, sem janelas, sem portas, separadas aos pares por divisórias de meia altura, sete delas lendo em voz não alta, mas audível para o colega, e batendo pontuação com lápis. Realmente aprende-se a trabalhar em conjunto! Então a gente tinha de modular o tom de voz, conseguir nitidez na elocução, mas falando baixo, para não perturbar os outros, e também porque - já tentaram ler cinco ou seis horas em voz alta, mesmo fazendo rodízio com o colega e parando de vez em quando para tomar um cafezinho? Quer dizer, tem de poupar a voz, senão não há voz ou garganta que aguente.

Algumas vezes por dia entrava um boy com montes de pastas enormes com as provas dentro, recolhia o que a gente já tinha feito e distribuía o novo material. Era sempre uma mistura, Cláudia, revistas de jardinagem, de carros, de saúde, todas com cronograma apertado e tendo de fechar rapidinho. Foi na Abril que aprendi a ter rapidez e eficiência na execução de tarefas, e ao mesmo tempo a ser muito metódica. Pois teu par vai lendo, você vai acompanhando, tem de pegar os erros, as letras faltantes, as letras trocadas, pontuação idem, as manchas, o alinhamento, e vai marcando as correções necessárias, de preferência sem interromper a leitura do outro - no máximo você pede para ir um pouco mais devagar. Então a pessoa precisa ficar esperta o tempo todo e ser bem ágil.

Apesar do ambiente potencialmente estressante, o chefe, um senhor miúdo, baixo, magro, mulato, na faixa dos 50 anos, sempre discreto, mas sorridente, conseguia manter o clima descontraído. Claro que todo mundo era jovem, moçada mesmo, no máximo com uns 23, 25 anos. Nosso chefe tinha o maior traquejo em lidar com a turma, até porque a rotatividade era bastante alta. (Revisão não era propriamente sonho de carreira de ninguém, pagavam pouco, talvez uns dois ou três salários mínimos; então era emprego de estudante mesmo.) A cobrança era intensa e constante, mas invisível, digamos assim.

Meu par era um rapaz alto, meio corpulento, que tinha de se espremer para caber no espaço entre a cadeira e a mesa, estudante de engenharia, nada dado a intelectualismos, muito risonho e afável. A gente chegava de manhã, dizia oi, sentava e começava. Sem história, sem conversa, só aquele zunzum/ toctoc da leitura e do lápis. A cada 40 minutos, mais ou menos, a gente trocava quem lia, quem marcava. Um dia, eis que o chefe senta na minha frente, e começa a ler para mim. Foi um espanto: a voz do homem era um mel, uma cantiga, uma doçura. Daria para aguentar aquilo por horas seguidas (porque outra razão pela qual é preciso fazer o rodízio de quem lê e quem marca é que, a partir de certa altura, aquela voz em cantilena começa a te irritar ou você começa a ficar distraído - então tem de parar e trocar). Acho que ficou uma hora, uma hora e meia ali comigo, trocamos uma ou duas vezes, deve ter achado que estava tudo ok, pois não comentou nem me corrigiu em nada, e foi continuar seus giros pelo setor. Fiquei quase estourando de orgulho e satisfação por ele ter se sentado ali na minha baia, e passei três dias me sentindo nos céus. Incrível isso, não?

Quanto ao trabalho de revisão em si, não tinha nada demais. Sendo só primeira prova, tinha muito mais erro do que numa segunda, claro, e o grau de concentração tinha de se manter constante. Mas era este o serviço; a rotina era simples e a gente levava numa boa. Já era editoração eletrônica, e não linotipo, e as provas vinham na montagem da folha dupla da revista, coladinhas na cartolina, já na diagramação final. Não sei quem e onde batiam a segunda prova. Não éramos nós. (Continua aqui)


piiiiii II


Vou contar um segredo, mas fica só entre você e eu, combinado?

Pode parecer que não, mas acontece demais. E o teste que você tanto quer fazer numa editora é de tradução, não de português, nunca se esqueça disso.
O português, dá-se de barato que você sabe.


piiiiii I

Este piii aí em cima é o som de um apito de alerta aos queridos aspirantes e iniciantes em tradução.

Imaginemos umas frases quaisquer. Por exemplo:
Tínhamos marcado encontro às dez da manhã. Beto chegou às dez e meia: tinha se atrasado por causa de um cliente que precisou atender de última hora. Não reclamei: entendi, claro, pois afinal Beto vivia mesmo se atrasando. Éramos colegas de escola fazia uns cinco anos e todos os sábados íamos tomar um sorvete na esquina. Então apanhei a bolsa, pegamos o elevador e fomos até a sorveteria do Seu Nino.
Compare-se:
Nós tínhamos marcado encontro às dez da manhã. Beto chegou às dez e meia: ele tinha se atrasado por causa de um cliente que ele precisou atender de última hora. Eu não reclamei: eu entendi, claro, pois afinal Beto vivia mesmo se atrasando. Nós éramos colegas de escola fazia uns cinco anos e todos os sábados nós íamos tomar um sorvete na esquina. Então eu apanhei a bolsa, nós pegamos o elevador e fomos até a sorveteria do Seu Nino.
Isso sem dizer:
Nós marcáramos encontro às dez da manhã. Beto chegou às dez e meia: ele se atrasara por causa de um cliente que ele precisara atender de última hora. Eu não reclamei: eu entendi, claro, pois afinal Beto vivia mesmo se atrasando. Nós éramos colegas de escola fazia uns cinco anos e todos os sábados nós tomaríamos um sorvete na esquina. Então eu apanhei a bolsa, nós pegamos o elevador e fomos até a sorveteria do Seu Nino.

Amiguinhos: lembrem que os verbos em português são flexionados e basta ver a conjugação para saber quem é o sujeito dele. Em inglês, não: num verbo regular, entre as seis pessoas apenas a a terceira do singular é que muda (ganha um s ou, dependendo da terminação do verbo, um es). E isso no presente, porque no passado ou com os auxiliares should, would, could, must, might etc. fica tudo igual. E aí é por isso que o inglês tem de usar e abusar dos pronomes retos para indicar quem é o sujeito.

Então vocês não vão traduzir todos os I, you, he/she, we e they que aparecerem num texto, né? Se a rigor não é errado-errado, fica pelo menos bem feiinho, digamos assim, por causa de uma coisa chamada redundância, que só atrapalha a fluência e a leitura.

18/12/2012

minha carreira de revisora I

Meu primeiro emprego na vida, embora informal, foi no Equipe, em São Paulo, onde eu estava fazendo cursinho, um semi, para prestar vestibular. Isso foi em 1971: eu tinha 16 anos, escrevia bem, e o Gilson, professor de redação do cursinho, me convidou a me juntar com seus assistentes que liam, corrigiam e atribuíam conceito às redações da moçada.

Foi lá que então comecei a trabalhar com o Carlinhos e o Zé Antônio - José Antônio Arantes, que veio a se tornar sensível e exímio tradutor. Quando fiz 17 anos, em novembro, os dois me deram de aniversário Memórias sentimentais de João Miramar Serafim Ponte-Grande do Oswald de Andrade, que a Civilização tinha acabado de lançar em suas Obras completas, e que guardo com o maior carinho até hoje.

O Zé trabalhava de revisor na Edgard Blücher e resolveu sair de lá, não lembro por qual razão. Então me deu o toque que ia abrir a vaga, e lá fui eu bater à porta da editora. Me apresentei, devo ter feito algum testezinho que não recordo e fui contratada a título de experiência. A Blücher é uma editora técnica, e eu tinha feito clássico - até tinha um inglês e um francês bem razoaveizinhos e algumas tintas de latim, mas nada de matemática, física, química ou biologia, a não ser o que se aprendia no ginasial. Imaginem! Mas era para revisão da segunda prova e aí o importante eram o português, a atenção e a capacidade de concentração.

Meu chefe era muito legal. Não lembro o nome dele, mas lembro sua figura: alto, magro, um pouco encurvado, com uns 40 anos, falava baixo e era calmo e atencioso. Andava sempre com um avental azul manchado de tinta e graxa, pois era da gráfica e ele que nos trazia as provas da linotipia e levava as provas corrigidas. Havia mais três na revisão, os três rapazes. Fiquei encantada em aprender coisas do ofício - basicamente as marcações, que não conhecia - e decorar palavras às quais eu devia prestar a maior atenção, que era onde mais passavam as gralhas: nunca me esqueci da biorrefringência (naquela época já era com dois erres e tudo junto, e a atenção que a gente tinha de prestar era no "n", pois parece que os gráficos viviam imprimindo "biorrefrigência") e do espácio-temporal (e jamais espaço-temporal nem espacio-temporal). Outras me fugiram da memória. Se eu pegasse alguma biorrefrigência e pedisse um "n", meu período de experiência estaria no papo, me diziam os colegas.

Fui bem, gostava, era sossegado, o lugar era legal: a editora ficava na Peixoto Gomide; eu morava em Santa Cecília e ia de ônibus até a Paulista, descia no ponto do Parque Trianon e atravessava aquele verdor lindo de manhã, admirando as teiazinhas de aranha que se estendiam entre as folhas das árvores e cintilavam de orvalho. Era um encanto para uma adolescente tão urbana feito eu. Fiquei uns dois meses na Edgard Blücher e então saí, por nenhuma razão em especial, talvez por ter em mim uma espécie de bicho-carpinteiro que não me deixava parar por muito tempo em lugar nenhum (mas só depois vim a constatar essa minha tendência) ou por não me sentir especialmente motivada em revisar livros cujo conteúdo transcendia meu entendimento e que eu não tinha a menor esperança de algum dia vir a apreciar, como merecem ser apreciados todos os livros que a gente lê.

Depois fiquei sabendo que a Abril, que na época era o máximo, ia fazer um teste de revisão. Periodicamente (acho que a cada seis meses) ela anunciava que ia fazer um teste coletivo a tal dia, a tal hora, choviam uns cem candidatos, todos se sentavam numa sala, em cadeiras de escola, e recebiam aquela folha corrida imensa de comprida, a prova tipográfica, para revisar. Fui lá, sentei, fiz o teste, passei com 92% ou 94% de acerto, o que, embora tenha me decepcionado um pouco, causou um pequeno cataclismo no departamento editorial. A coordenadora mandou me chamar e disse que a média geral costumava ser de 45% de acerto e que contratavam quem alcançasse 60%, e que nunca tinha visto uma coisa daquelas. No mesmo dia me encaminhou para uma psicóloga da empresa, que fez uma entrevista comigo e me mandou escrever um texto por livre associação, ali na frente dela. Escrevi umas três ou quatro páginas com um ar meio frenético, pois estava achando aquilo divertido e resolvi dar uma teatralizada meio bretoniana na coisa.

Parece que ficaram um pouco impressionados e me propuseram entrar direto para a redação da Veja (que na época era bem diferente do que é hoje). Não quis. Finquei pé e quis ficar na revisão. A senhora de lá, a tal coordenadora, até ficou meio chateada e fez cara feia, e, para não parecer muito grosseira, falei que era por causa do horário da faculdade (nesse meio tempo, eu tinha entrado na USP, em ciências sociais, mas achei muito chato, pois mais da metade dos professores tinha se exilado, aquilo parecia um cemitério, e me transferi para a filosofia, igualmente chata, mas isso é outra história). Como revisor fazia turno direto de cinco ou seis horas, eu podia trabalhar de manhã e fazer a faculdade de tarde, enquanto na redação era período integral. A senhora ainda insistiu, dizendo que o salário era muito melhor, que na redação era folgado, era só eu deixar um casaco ou um livro na cadeira ou na mesa, que todo mundo fazia isso, eu podia tirar a tarde e ninguém ia dizer nada. Como, além de bicho-carpinteiro, tenho algumas características de mula, aí sim que empaquei e disse, revisão ou nada.

Foi assim que entrei como trainee na Abril. Lá foi sensacional como experiência, embora eu tenha cumprido apenas meus trinta dias e depois puxado o carro. (Continua aqui)